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Danças Circulares Sagradas – A graça da roda

Guardei da minha infância na França (aparentemente austera: sem televisão, sem passeios a shoppings, sem consumismo, com certeza) algumas lembranças encantadas de ensaios e apresentações de danças nem sempre circulares, mas sempre de cunho étnico: marchas escocesas, gestualidades japonesas, cirandas francesas... Não faziam parte do nosso dia a dia. Nossas mestras as tiravam do baú somente em ocasiões especiais: para festas de fim de ano, dia das mães, ou na ocasião de alguma outra comemoração.

Na classe, afastávamos as carteiras (santa ordem dos alinhamentos de carteiras que somente uma dança tinha o poder de modificar!) para os ensaios iniciais. Repetíamos o processo cotidianamente até o momento em que, já bem perto da data do evento, íamos ensaiar “no palco”!

Doces emoções quando, em fila na rua, em duplas e de mãos dadas, sob a férula da nossa professora, atravessávamos o nosso bairro até a sala paroquial (que ficava na escola dos meninos – com quem não cruzávamos, durante esta excursão, nem de longe!) onde, enfim, subíamos no palco!

Elevadas acima do nível da nossa realidade habitual, dançando, errando, esperando, acertando, desfilando, deixávamos nossa alma crescer, algo suave e forte enchia os nossos pulmões, um vago sonho se desenhava no horizonte (de repente, havia um horizonte!) e certamente a emoção dos ensaios deixou uma marca mais profunda do que as apresentações para o público.

Muitos anos mais tarde, em meio à produção de um trabalho acadêmico que parecia interminável, decidi: assim que terminar, quero praticar danças folclóricas! (De novo: a possibilidade de deixar a alma crescer, enxergar um horizonte sobre o qual sonhos eventualmente indefinidos e vibrantes pudessem desfilar...)
E como por encanto, essas danças chegaram, através do movimento das Danças Circulares Sagradas, em um grupo de estudos do qual eu participava...

As Danças Circulares Sagradas são danças folclóricas de todos os povos, tradicionais ou contemporâneas. Uma de suas características é a universalidade. Seu repertório abrange danças de todos os lugares e de todas as épocas possíveis.

O movimento das Danças Circulares Sagradas nasceu por volta dos anos 70, quando o coreógrafo alemão Bernhard Wosien começou a coletar danças folclóricas européias, pois havia percebido que, deixando de praticar suas danças tradicionais, as pessoas iam perdendo este poderoso meio de expressão popular. Este movimento das Danças Circulares parece ter iniciado à maneira de um resgate de danças do hemisfério norte, mas atualmente o repertório dos focalizadores já está abraçando danças do mundo inteiro.

O resgate só pôde ser realizado mediante a prática, mas a questão das danças, é claro, vai muito além deste resgate inicial. Primeiro porque nem todas as danças estão ameaçadas; muitas são praticadas pelos povos que as criaram, e vão até muito bem. Segundo, porque na questão do resgate e da prática das Danças Circulares, os necessitados e os beneficiários somos nós todos, cidadãos do mundo do século XXI, e não apenas os povos que tiveram parte do seu folclore revitalizado graças a este movimento.

As Danças Circulares são poderosas, à maneira dos gestos ritualísticos que tiram seu poder da repetição fervorosa pelas gerações sucessivas de seres humanos que, através da sua prática, os moldaram.

Nas danças tradicionais dos povos está embutida sua sabedoria – a mais alta sabedoria, afirmam certos pesquisadores - estão codificadas as características de sua alma. Sob o manto da brincadeira, do “folclore”, do inocente divertimento popular, a dança possibilita a resistência do povo ao inimigo, real ou potencial. As raízes do povo se encontram aí.

As Danças Circulares encerram uma lição para a nossa civilização de consumo desenfreado e descarte rápido: eis um “produto” que não se joga fora após o uso. Um dos prazeres da dança está justamente na repetição. (Paradoxalmente, às vezes, constatamos uma certa voracidade, um pedido por mais e mais danças, “novas” danças, o que pode corresponder a uma fase de deslumbramento do dançarino iniciante, ou a um reflexo da ansiedade do consumidor do século XXI em se manter “atualizado” e “competitivo”, o que aparentemente não condiz com o espírito das Danças Circulares.)

Então, as Danças Circulares, instrumento de resistência dos povos, chegam para a nossa civilização no exato momento em que precisamos resistir aos incessantes apelos ao consumo de bens materiais que não satisfazem ninguém por muito tempo.

E, na nossa época assombrada pela massificação, surge, outra face da globalização, um interessante pipocar de manifestações étnicas, entre as quais as danças populares, variadas até o infinito e acessíveis para a maioria dos cidadãos comuns.

E sta infinita diversidade cultural hoje em dia ao nosso alcance representa um convite para resistir à massificação, para, conhecendo os outros –outros povos, outras raças- chegar dentro de nós mesmos, povoando o nosso espaço interno. Além disso, o conhecimento de danças, abrindo espaço para o aprofundamento pela repetição e o refinamento do gesto, contrasta com a repetitividade insensata da prática do descarte. Pois cultivar a diversidade é bem diferente de praticar o descarte sistemático de qualquer atividade, objeto, aprendizagem ou conteúdo após o uso, de procurar a novidade a todo custo fora de nós mesmo.

Com efeito, a menos que o nosso contato com elas seja superficial, as Danças Circulares produzem um rasgo na banalidade da ordem estabelecida e na realidade trivial, e nos aproximam desse algo perene que elas acobertam, e que alimenta o perene em nós, a nossa alma.

Assim, a prática das Danças Circulares, abrindo possibilidades de troca – através do intercâmbio de desenhos coreográficos - entre grupos humanos, permite que cada indivíduo interessado prove da especificidade dos diversos povos. Desta maneira, cada bailarino, cada amante da dança, espelhando-se na alma de outros povos descubrirá talvez nele mesmo um receptáculo para a diversidade, um palco capaz de elevar seu espírito e fazê-lo encontrar um horizonte sobre o qual sonhos de fraternidade possam nascer.

Céline Lorthiois, março de 2005.